Ruínas: futuro do presente

Uma video instalação com ruínas de locações russas, germânicas e argentinas (Lucas Gervilla), gregas, sul africanas e estadunidenses (Monica Toledo), aquarelas de Danielle Noronha e fotografias e impressões experimentais das casas totem de Sérgio Kal. O conjunto de 4 linguagens visuais – video, fotografia, cinema e aquarela – se revela em projeções múltiplas e a cada instante inéditas ao visitante, que ocupa os ambientes com suas sombras, habitando os lugares num novo presente. A trilha sonora cria a ambientação deste passeio por tempos e espaços indistintos, ao mesmo tempo sintonizando a ruıína em novas temporalidades do presente.

Esta é uma obra de projeções que recriam permanência e esquecimento, memória e ocupação de tempos e espaços hıb́ridos. Compor imagens neste contexto permite perceber como as imagens (nossas imaginações) se relacionam com as noções de lugar em movimento. O espaço não mais habitado o lugar desta troca incessante de impressões, construções e representações de si e do outro, no lugar e na casa, na rua e na sala. Este tecido urbano representa também o singular, em texturas de sentidos e possibilidades audiovisuais sempre sobrepostas por outras, assim como pelas sonoridades, rastreadas para serem perdidas. A obra inspira o visitante a vivenciar lugares diversos e estimula o olhar que passa a ocupar e reinventar os espaços desabrigados, numa experiência singular, reconhecendo ambientes em constante atualização.

As aquarelas e fotografias, a princípio fixas e bidimensionais, criam em seu estado suspenso e translúcido um efeito tridimensional e um aprofundamento do olhar, que tem o ponto de vista multiplicado e sempre enviesado. Neste ambiente imersivo, percorrer espaços sonoros e visuais oferece ao visitante uma experiência particular ao provocar-lhe para suas pró prias edificações imaginárias, reconhecendo nestes ambientes de trânsito a constante atualização de uma história, através de visualidades e sonoridades que apresentam a própria subjetividade, arruinada e ruidosa, que nos desloca para outros tempos e espaços.

A instalação revela paisagens que atestam mundos distintos e simultâ neos, e reconfiguram lugares desabitados. Ruínas são ações que conectam permanência e esquecimento. Formas impermanentes, visualidades móveis. Os percursos visuais da instalação funcionam como experiências cinestésicas: os lugares são também reinventados com ocupações e afetos nas práticas de sobreposição de objetos e imagens. Em seu caráter provisório e relacional, a instalação propõe novos ambientes e sentidos para cada um.

O espaço apresenta temporalidades simultâneas e a memória se refaz nessa visualidade contraditória. Ao expor (in)visibilidades – plurais, fantásticas e reais – a ambiguidade que acompanha a noção de ruína conecta os sons e imagens da obra representando o anônimo, o público e o singular, em texturas de sentidos sempre sobrepostas. O tempo do lugar como fonte inesgotável de acontecimentos; memória, história, imaginação, afeto, corpo: termos fugidios demonstram realidades diversas que seguem escapando aos sentidos.


A cidade argentina de Epecuén foi inundada quando a represa de um lago cedeu em 1985, e ficou em baixo d’água até 2009: uma cidade petrificada, com esqueletos das construções, esvaziada de seus sentidos originais. Esta natureza de imagens perde sua identidade local e passa a desnudada e exposta, onde restam vestıǵios de portas e portões particulares. Já Detroit, após consumar-se como o sonho americano da indústria automobilıśtica, sofreu uma profunda crise econômica, que acompanhou a mudança de paradigmas mundiais, e experimentou um imenso ıńdice de desemprego, registrado em visualidades que atestam grandes espaços e lottes vazios entre o centro e a periferia, onde vivem agora os detroiters.

Fábricas e indústrias da ex-União Soviética são registradas em ambientes cujo acessos são proibidos, revelando paisagens desocupadas de suas funções prá ticas de produç ão e engrenagem, quando o mundo era outro, até 1991. Paisagem distinta são os registros também históricos de um ex presıd́io do Apartheid, regime brutal de segregação racial da Africa do Sul. A visita ao atual museu revela nas celas originais histórias de presos que ali deixaram suas marcas nas paredes em restos de cores que materializam a dor e a opressão, humanizando as prá ticas desumanas do regime político que perdura até o início de 1990.

O vilarejo grego Agios Ioanis, localizado nas montanhas da ilha de Creta, foi praticamente abandonado depois das duas grandes guerras mundias, quando os moradores partiram em busca de trabalho e pra fugir dos invernos e da fome. Deixaram suas casas com todos os mó veis e objetos pessoais: porta retratos, talheres, colchões, copos, cadeiras. Intimidade e anonimato garantem experiências únicas para tipos singulares de interaç ão com estas imagens materializadas.

Sergio Kal - Ruínas: futuro do presente

Atenas, cidade lendá ria e mitoló gica que funde culturas mediterrâ neas distintas do Oriente Médio e Bá lcãs, é terreno fé rtil constante de mestiç agens de toda natureza desde seus comércios seculares. A ocupação e resiliência de artistas que desestabilizam seus có digos milenares de beleza está presente em posters, colagens, graffitis, que coabitam com esculturas de divindades e do próprio sonho da humanidade. Ao corroer estes primados, a arte urbana contemporânea grega ocupa um não lugar entre a ruína e o eterno, um fim que insiste na permanência de sua adulteridade.


Ruínas têm visibilidades específicas que indicam mais que um passado, evocando algo além do visıv́el e do palpável. A impossibilidade de rastreamento, tal sua abrangência no espaço (em materialidade) e no lugar (sempre reconfigurado) abrange uma qualidade aberta e abstrata, porém afetiva. Creta, Moscou, Atenas, Johannesburg, Epecuén, Detroit, Berlim Oriental: encontro improvável em imagens mó veis sobrepostas que geram outros tempos e espaços.

As opções pela montagem visual hıb́rida demostram a possibilidade de se compartilhar espaços e histórias particulares múltiplas. O espaço da troca e a conteminação como reinvenção de cada um nestas paisagens ruidosas sempre parecem nos escapar. A obra inspira o público a vivenciar a cidade de forma potencializada e estimular o olhar e o ouvir de uma diversidade cultural que hoje “particulariza” o espaço coletivo. Em sobreposições que lembram palimpsestos – imagens projetadas e vazadas para outras telas translúcidas, em “infinitas inscrições” – estas ruínas deslocadas para o tempo presente se movem e deslocam nossa percepção espacial e entendimentos de afeto, memória e presença.


Dez tecidos translúcidos de aproximadamente 4 metros de altura por 3 de largura cada, dispostos em todas as direções e ocupando todo o espaço expositivo (de quase 8 metros de pé direito), guardam entre si uma distância comum de cerca de 1 metro, espaço para o trânsito de visitantes. Cada video exibido em looping é projetado em um tecido-tela por um projetor especıf́ico, constituindo-se assim 10 sequências diferentes no espaço expositivo. Estas sequências de videos se sobrepõem umas às outras devido à transparência do tecido-tela, de tons variados, que também conferem às imagens projetadas uma certa materialidade. As aquarelas são igualmente inseridas e editadas nos videos, cujas outras fontes midiáticas são cinema e fotografia.

A montagem sonora é constituıd́a por canais de audio que alternam em loopings, que preenchem o ambiente instalativo sem ordem ou linearidade, permitindo que o visitante passeie gerando suas próprias narratividades e continuidades em estados de atenção diversos.

O conjunto desta obra compõe distintas percepções e entendimentos de ruínas: casas gregas milenares; vilas argentinas abandonadas; objetos domésticos sem dono; moradias invadidas pelo vento, neve, sol e mato; fábricas russas esquecidas; jardins montanhosos. Ruínas: futuro do presente é obra de quatro artistas inquietos que adoram inventar novas paisagens, e que convidam aqui a um passeio e devaneio por memórias sem fim. Ruínas: Futuro do Presente é composta por dez videos projetados simultaneamente, compondo uma video instalação imersiva exibida na SP Escola de Teatro durante a Mostra Dramaturgias do Real.