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Pompeias

Em sua prática fotográfica, Sergio Kal colecionou imagens de pequenas casas paulistanas que viviam exprimidas por prédios grandes e novos. Estas moradias geminadas dos anos 1940 são ameaçadas e com o tempo destruídas por imobiliárias. Expulsas da cidade, fadadas à invisibilidade, estes registros feitos na Lapa, Vila Madalena e Pompeia viraram gravuras em metal, técnica que reconstrói as imagens das casas sem tirar-lhes o caráter real.

A ideia de transformar a tecnologia em testemunho do passar do tempo e abandono urbano se extende à fotogravura, quando o toner da xerox é aplicado na placa de metal expondo uma imagem simplificada com interferência de tinta em ponta seca, resultando numa visualidade e aderência transformadas pelo calor. A presença irregular do toner cria totems fantasmas: imagens oscilantes que acabam invertendo valores; de seu caráter esmagado tornam-se atemporais, com seus entornos eliminados, ganhando integridade e uma nova importância.

A ruína neste caso desloca a noção de devir como algo impermanente, sempre em processo evolutivo de apresentação, na presença fixa do objeto em sua mobilidade do entorno e de cada olhar. Resistir ao tempo e às forças comerciais nestas imagens de persistência performada é insistir em preservar espaços também idílicos. Em seu processo literal de decomposição, as “casinhas” experimentam novas existências nesta obra estendida do artista, que co-habita os cenários ao observar as mudanças em constante vontade de vivenciar uma certa trama urbana que alimenta e molda nossa cultura.

Depois de emoldurado e exposto parcialmente em São Paulo, o resultado mais recente desse trabalho é a obra Ruínas: Futuro do Presente, composta por dez videos projetados simultaneamente, compondo uma video instalação imersiva exibida na SP Escola de Teatro durante a Mostra Dramaturgias do Real. O video Pompeias foi concebido para mostrar a evolução das imagens destas casas em seus vários processos técnicos de exploração de suas visualidades, integrando o conjunto que dialoga entre si em múltiplas e dinâmicas sobreposições em telas translúcidas num ambiente de cerca de 30 x 90m.

Muitas perguntas surgem de visitantes deste passeio imersivo. Um lugar deixa de ser ruína se é restaurado? Se é ocupado? Se uma ruína é cuidada ela perde seu estatuto? E se for rastreada, mapeada ou apropriada? É o meu olhar que a determina? Uma construção segue sendo ruína quando vira um local turístico? E se virar um parque arqueológico? E se o lugar não foi abandonado e acomoda outros tipos de presença? Meu olhar e meu gesto de registrá-las e manipulá-las, propondo narrativas ou resgatando histórias, faz com que eu habite a ruína? Habitar é performar? Se a ruína deixa de sê-lo pra mim, também deixa de ser pra outro? Certo é: a ruína não se categoriza e a apropriação do termo é pessoal, como a do lugar. Numa eterna fantasmagoria do presente, mutante e maleável, segue eu seu vir a ser, história ruidosa que ergue seu traço – rastro projetado pro futuro.

O conjunto desta obra compõe distintas percepções e entendimentos de ruínas: casas gregas milenares; vilas argentinas abandonadas; objetos domésticos sem dono; moradias invadidas pelo vento, neve, sol e mato; fábricas russas esquecidas; jardins montanhosos. Ruínas: futuro do presente é obra de Sergio Kal, Danielle Noronha, Monica Toledo e Lucas Gervilla. Aguarde nossa próxima performance!

imagens

  • processos visuais das casas – técnicas variadas
  • youtube – registros instalação ruínas (com pompeias)