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Casa da Vó

Nossas melhores lembranças são aquelas que quando passam permanecem pra sempre na memória. Nossos lugares de afeto se fortalecem no tempo e se transformam em muitas coisas, como a série Casa da Vó, que virou fotografia, desenho, xilogravura, estamparia e lambe lambe.

Do hábito da infância de visitar a avó e observar seus objetos cotidianos, como toalhinhas de mesa rendadas, crochê, tricô, desenhos de xícaras, peças de cozinha e de uso pessoal, nosso artista Sérgio Kal realizou um percurso que distorce a noção do comum ao elevá-lo à qualidade de singular.

O universo pessoal da avó começa com exposição das gravuras em metal de portões, sapatos, máquina de costura, botijão, óculos, máquina de escrever, rádio e relógio de parede, que foram reimpressas e decoraram a Gravura Brasileira, galeria paulistana, em colagens de lambe lambes na parte externa do sobbrado. Desta mostra seguiram para a SP Estampa, integraram seu catálogo, em seguida foram parar na Cara de Casa, loja de decoração onde tiveram matrizes vendidas, e continuam por aí, espalhadas por muitas casas, criando diálogos e ressignificando outros objetos domésticos.

A história do lambe lambe, muito além da fotografia e seus tradicionais fotógrafos lambe lambe, se mistura com o nascimento da arte de rua. A street art no Brasil nasce nos anos 1970 na ditatura militar e é uma forma de grito por visibilidade da maior parte dos artistas visuais. Nesse lugar de busca por legibilidade, que discute e provoca a arte eleita e eternizada dos museus, a arte de rua surge em sua força popular e diversa, acessível e democrática. Mas a origem destes posters colados com tinta látex ou guache está no fim do século XIX, quando nasce a indústria de impressão (a imprensa) e foto copiadoras podiam reproduzi-los em massa.

O lambe lambe como arte gráfica evolui junto com a pixação e o grafite e se diferencia pela impressão prévia em cartazes de baixíssimo custo que são colados, em geral de forma sequenciada, nos muros da cidade. Ele também dialoga com a gravura ao permitir a reprodução de matrizes de imagens feitas em materiais muito diversos. Se o lambe lambe tem um lado publicitário, pois tornou-se mídia fácil de divulgação de eventos (do teatro à política) ele se mantém ao mesmo tempo junto das artes de rua e separado por seu suporte singular e sua técnica única de reprodução através da colagem.

Longe dos cânones das artes visuais clássicas, essa subversão da arte na luta por um espaço ao sol encontra no trabalho único de Sergio Kal um lugar doméstico ao invés de urbano. O desejo de expressão visual que foge de imposições de mercado encontra na série Casa da Vó o acesso a um universo afetivo e particular, que ao se reproduzir nos lembra que todos nós temos um canto comum de lembranças pessoais.

imagens

  • dos lambes
  • da exposição nos fundos da galeria
  • fotos dos objetos
  • gravuras emolduradas