Caixa de Ossos

Os lugares do corpo viram marcas nos lugares onde habitam. Sergio Kal encontrou cantos e assim em objetos jogados em caçamba – pedaços de casas a serem demolidas – e preencheu esses espaços domésticos imprimindo ali seus próprios corpos. Uma memória osso, marca de presença, ocupa gavetas, batentes, madeiras, para lembrar que a marca do corpo será visível sempre.

Do aparente abandono do objeto doméstico ressurge o corpo em sua marca primeira: seus ossos. Perna, cabeça, pé, braço, mão, fêmur, costela são impressas como gravuras em vermelho e dourado; do despejo ao registro o corpo segue sagrado – vivo e imemorial em marcas sempre por fazer e assim reocupar. O vermelho e dourado remetem à vida e à preciosidade na cultura oriental, que nada elimina, reapropriando-se de objetos quebrados prenchendo seus espaços perdidos com ouro.

Uma das maneiras de se reconhecer um corpo é por seus ossos – sempre únicos, denunciam formas de pisar, comer e trabalhar. Assim se contam as histórias humanas. O lugar onde se viveu está também impresso no corpo (uma gruta? um iglu?) e assim, o corpo também se imprime no lugar. Esse desejo de atestar a presença, de ocupar uma casa vazia com vestígios corporificados, visíveis, é um outro modo de rastrear vidas.

O que o tempo apaga e o vento leva permanece impresso no corpo e também no lugar. Transpor pinturas de ossos impressas nos móveis é reinventar presenças possíveis, insistir em habitar em formas silenciosas de osso e madeira, matérias sempre singulares. Insistir também na permanência do que perdeu seu valor – uma memória, uma história, um móvel desamparado na caçamba.

A caixa de ossos de Sergio Kal é apropriação de restos que constroem novos espaços e vivências ao convidar o olhar a reabitar moradias abertas ao outro qualquer – destituídas de seus usos primeiros, resilientes em seus objetos que agora ocupam vazios e criam pertencimentos, num afeto invertido, desprendidos de si próprios.

“A memória solicita a presença” estreou na Galeria Mezanino. Este é o nosso texto criado para

a exposição:

 

Dividir um corpo em pedaços como forma de melhor entendê-lo, mapeá-lo, estudá-lo. Tentar descobrir onde estão os pensamentos, o que o equilíbrio lombar conseguiu disfarçar, se a curva do tempo apareceu no ombro, e a dor em que osso se assentou. Procurar pelo desejo e não ver nada além de talhos, então enfim trocar a pele pela madeira. Sergio Kal vasculhou imóveis abandonados e pedaços espalhados de casas, que de particulares escancararam suas histórias ao vento. Tomar a madeira como pele, observar sua história visível nas marcas e cortes, e dar-lhe imagens de ossos, é descobrir que o corpo só existe na memória e que sua história só pode ser contada assim: de forma apaixonante e aleatória. 

 

Sergio Kal se apropria de pedaços de madeira, traços de histórias anônimas e ruínas domésticas expostas em caçambas pelo abandono e demolição. Portas, janelas, batentes e gavetas tornam-se um esqueleto humano dividido em pedaços que se deslocam de seu princípio (o corpo) e de seu fim (a morte), gravados numa memória-madeira que lhes dá vida e sugere novas histórias. Este corpo completo, talhado e remapeado a cada olhar, infinito em suas combinações inéditas, é sempre vivo e sempre fugidio.