A verdade é que personagens de uma marca não são apenas personagens: eles são patrimônio. Assim como a Kellogg’s representa a companhia, o Tony também carregava esse peso institucional.
Lá nos primórdios da minha vida como designer de embalagem – antes mesmo da Sapien, ainda como sócio na Otto Design – pegamos um trabalho da Kellogg’s que envolvia uma pequena modificação na embalagem de Sucrilhos, mais especificamente no verso, que sempre trazia brincadeiras promocionais.
Só que, quando essa embalagem chegou até mim, o que me incomodou de verdade foi o Tony. Ele tinha um visual muito caricato: um tigre grandalhão, com cara de bobão, típico de uma comunicação norte-americana estereotipada. Aquilo não fazia sentido para o público brasileiro e ficou na minha cabeça.
Então resolvemos propor, por conta própria, uma versão mais “brasileira” do Tony: despojado, com espírito de atleta, com aquele jeito leve, quase carioca.
A primeira reação foi de estranhamento. Ninguém tinha pedido para mudar o personagem, que era um símbolo consolidado da marca. Mas o marketing percebeu valor na proposta, decidiu apresentar a ideia que foi aprovada integralmente pela matriz.
Depois disso, nos pediram também a atualização do Cornélius, o personagem do Corn Flakes. Aplicamos o mesmo raciocínio: adaptar o visual e a linguagem do personagem à realidade brasileira.
No fim, foi um daqueles momentos raros em que uma interferência que parecia fora de escopo acabou virando um redesenho completo de personagens icônicos. E isso, sim, foi marcante.
– Sergio Kal